About

O Clube dos 35

Meu nome é Pedro, tenho 23 anos, sou formado em Administração pela FGV e curso Fotografia na Belas Artes. Fotografo há cerca de três anos, mas acho difícil especificar um momento a partir do qual passei a me considerar fotógrafo. Acredito que, de um modo geral, fotografar é observar com intenção, e sempre fui uma pessoa observadora. Esses três anos de fotografia considero a partir de um momento em que passei a registrar com regularidade aquilo que achava interessante. Comecei com o celular mesmo, muito guiado por um interesse inconsciente por arquitetura. Durante uma viagem, em minha primeira vez na Europa, em 2024, desenvolvi muito meu olhar para além da arquitetura, mas ainda era meu principal assunto. Foi quando comecei a me interessar pelo cotidiano, buscando beleza nas cenas ordinárias do dia a dia. Voltando ao Brasil, comprei minha primeira câmera, uma Canon R50. Comecei a fotografar mais e mais a cada dia, levava a câmera comigo sempre que possível. Aqui, meu interesse maior já era fotografia de rua, amava me perder pela cidade em busca de boa luz e boas cenas. E assim faço até hoje. Em agosto de 2025, fui à França com o programa de intercâmbio da FGV. Morei em Lyon por quase seis meses, onde estudei na Emlyon Business School. Meu plano era buscar uma vaga em crédito corporativo em um grande banco ao voltar para o Brasil e seguir uma carreira tradicional no mercado financeiro. Até então, fotografia era um hobby e eu não fazia ideia do que era fotografia analógica, apenas sabia que existia. Entretanto, dentre tantas exposições em galerias e museus que visitei ao longo do intercâmbio, uma em específico virou uma chave em minha cabeça: "Os italianos", de Bruno Barbey, na Opera Barolo, em Turim. Além da beleza excepcional do trabalho, a história de incerteza que bruno tinha sobre sobre seu destino profissional foi importante fonte de inspiração para mim. Decidi fazer da fotografia minha carreira. Em uma viagem a Viena, comprei uma Minolta X-300 por 90 euros, e desde então o filme fotográfico tem sido meu principal método de trabalho. Voltando para a França, comprei um tanque de revelação e químicos e aprendi a revelar meus negativos em casa. A fotografia em filme foi um marco importante para mim, foi o momento de maior amadurecimento técnico do meu trabalho. Hoje, sigo produzindo em filme e estudando Fotografia na Belas Artes, onde tenho acesso ao laboratório de fotografia. É o lugar em que passo mais tempo dentro na faculdade.


How did you first get introduced to photography? 

Olhando para trás hoje, percebo que desde muito novo eu tinha um olhar cuidadoso. As fotos que eu fazia da Lola - cachorrinha com a qual cresci - eram tecnicamente muito boas, por exemplo, e eu sempre gostei de fotografá-la. Era minha modelo preferida. Lembro que eu vendia coisas na internet para fazer uma grana quando era mais novo, e sempre tive um grande cuidado com as fotos dos anúncios. Mas até então não havia muita intenção, era tudo meio instintivo. Acredito que o momento que passei a registrar com mais intenção foi em minha primeira viagem para a Europa, em 2024. Passei um mês entre Londres e Suíça, onde já fui com a pretensão de fazer registros. Eram fotografias de viagem e bastante voltadas para arquitetura, principalmente em Londres. Na Suíça tive o privilégio de fotografar paisagens exuberantes. Tudo com o celular, era um Galaxy S22 ultra, uma ótima câmera, mas ainda muito distante de um sensor full-frame ou APS. Amadureci bastante meu olhar durante a viagem, e percebi que me interessava também por cenas do cotidiano. Não sabia o porquê, mas me chamava a atenção. E foi a partir disso que comecei a me aprofundar no gênero da fotografia de rua.

Can you describe your creative process? 

Eu nunca paro de fotografar, não há divisão entre momentos que saio de casa para fotografar e que saio para fazer qualquer outra coisa, fotografo a todo momento. Estou sempre observando, meu olhar está sempre atento. Como todo bom fotógrafo de rua, sempre carrego um câmera comigo, quase sempre uma analógica. Todo momento na rua é oportunidade, uma boa fotografia pode aparecer quando menos esperamos. Dito isso, meu processo começa na rua. Observar a luz é o primeiro e talvez mais importante passo. É fundamental entender como ela incide, como as sobras se comportam, os reflexos, as cores. A partir disso, sei como me posicionar no espaço. Então, entra a observação com atenção, intenção e paciência. Espero por uma cena interessante, ou uma boa composição. Produzo majoritariamente com filme preto e branco, o que influencia bastante meu olhar. Sou mais guiado por contrastes de luz e sombra, geometrias, texturas entre outros elementos que não envolvem cor. Revelo meus negativos em casa ou no laboratório da faculdade, onde também os digitalizo. As melhores fotos amplio na sala escura, talvez a minha parte preferida e mais desafiadora do processo. Acho o processo analógico muito bonito, muito mais gratificante que fotografar digitalmente. A imagem é construída em diferentes etapas, desde a escolha do filme, técnica de revelação, até as tantas possibilidades na sala escura. Eu costumo puxar os meus filmes, geralmente de ISO 400 para 800 ou 1600, gosto do contraste e grão do filme puxado. Na ampliação das cópias, os filtros de contraste me ajudam a atingir o resultado que quero no papel. Adoro ignorar qualquer explicação técnica sobre o processo e abraço o clichê de dizer que é mágica o que acontece na sala escura.



Are there any artists, who have left a significant impact on your life and work? This could be someone from the past or someone currently influential.

Como citei na mini biografia, Bruno Barbey teve uma influência fundamental na minha fotografia e no meu futuro profissional. A exposição que visitei em Turim da série "Os italianos", de Barbey, mudou a minha vida e moldou meu olhar. É um dos grandes mestres que tenho como referência quando penso na fotografia documental. Meu primeiro contato com seu trabalho foi a série Os italianos, que retrata a sociedade italiana no pós-guerra, do norte ao sul do país. São registros em preto e branco, mas me inspiro bastante em seu trabalho em cor, com destaque para as fotografias que fez no Marrocos.Lee Miller é outra grande referência, fiquei encantado quando conheci seu trabalho no Centro Italiano per la Fotografia em Turim. Grande mestra da fotografia editorial e excepcional em seu trabalho artístico autoral surrealista. Mas o que mais me fascinou foi seu trabalho documental ao final da segunda guerra. Me lembro bem do dia em que vi, em uma exposição em Turim, sua fotografia na banheira de Adolf Hitler, ao lado de seus outros registros de guerra.Outra mestra que tenho como referência é obviamente a Vivian Mayer. A qualidade técnica é excepcional, seu olhar capturou o cotidiano de Nova Iorque e Chicago como ninguém jamais fez. Além do repertório imagético que ela nos oferece, me inspiro na forma como ela foi apaixonada pela fotografia independente de expor seu trabalho para o mundo. É uma pena que seu sucesso tenha sido póstumo, porém, é bonito como ela produziu um corpo de trabalho tão belo e extenso para si, por pura paixão pelo ato de fotografar. Principalmente em um mundo no qual a validação externa é tão ansiada.Foi de extrema importância ter meu primeiro contato com Daido Moriyama depois que eu já havia atingido um certo nível de maturidade, principalmente técnica. Daido é um fotógrafo que me ensinou a quebrar regras. Também me ensinou a ser mais obcecado pela fotografia. Ele fotografa de forma frenética, passa horas e horas em suas caças incessantes por imagens pelas ruas de Tóquio. Seu trabalho me trouxe um desapego pelas "normas" de composição. Fotografo à noite em baixa velocidade, abro mão de nitidez quando necessário, ouso ângulos não convencionais, adoro o grão evidente do filme puxado, me permito fotografar por instinto. Moriyama produz uma fotografia muito crua, e com uma estética muita característica de alto contraste e grão aparente. Sem dúvidas é um fotógrafo que me influencia bastante.Hoje, minha maior inspiração é provavelmente Gustavo Minas. Meu trabalho é majoritariamente monocromático, mas admiro e me inspiro na forma como ele observa as cores. Sua série na rodoviária de Brasília, por exemplo, é um espetáculo. Porém, a característica de seu trabalho que mais me encanta são os reflexos. Gustavo trabalha os reflexos como ninguém. É um recurso que busco desenvolver no meu trabalho fortemente inspirado na estética de Minas.

What place does analog or alternative photography occupy in your life? Is it part of your work or more of a hobby?  
O analógico é definitivamente o meu principal meio de trabalho hoje. Desde que comecei a usar filme, no ano passado, me apaixonei pela beleza do processo. Não é um hobby e nem nostalgia. Claro que acho linda a estética analógica, mas, sinceramente, acho cafonas os filtros digitais que, movidos pela nostalgia, tentam copiá-la. Assim como tudo aquilo que tenta ser o que não é. Não gosto de tratar o analógico como nostálgico, primeiramente porque a fotografia analógica é também o presente. E segundo, porque esse tratamento é simplista e superficial. Não é analógico mandar um filme para o laboratório e nunca mais ver os negativos. Ou simplesmente receber as imagens digitalizadas para postar no Instagram. É mais fácil e barato aplicar um filtro digital que simule o visual analógico. Mas é claro, é mais cool sair por aí clicando com uma saboneteira. Onde está a materialidade nesse ciclo que utiliza a película para captar a imagem mas só se guarda os arquivos digitais? Por mais que eu adore a aparência do grão, as cores e a suavidade do filme, os motivos pelos quais a utilizo em meu trabalho são mais profundos, e serão melhor desenvolvidos nas perguntas a seguir.




Tell us about the equipment you use. Where did it come from?
Meu xodó é a minha Minolta X-300, mas ela infelizmente quebrou recentemente, preciso levá-la para o conserto. A comprei na United Camera, em Viena, em outubro de 2025. Foi minha primeira câmera analógica. Eu não sabia sequer como carregar o filme na câmera, fui auxiliado pelo dono do Photo Cluster, uma cafeteria dedicada à fotografia analógica em Viena. Ela veio com uma Rokkor 28mm f/2.8, que até hoje é minha lente principal. Recentemente, adquiri um corpo Minolta srT303, totalmente mecânico, que tem sido minha câmera principal. Além disso, na França comprei também uma Yashica Minister-D, uma rangefinder totalmente mecânica. Apesar do mecanismo de ajuste de exposição não ser o mais prático, é muito boa para rua, pois é uma câmera extremamente silenciosa. Ela tem uma lente fixa de 45mm f/2.8. Além disso, comprei na França também uma lente Minolta MD 28-70mm f/3.5-4.5, que uso em ambos os corpos Minolta. Recentemente comprei minha primeira saboneteira, uma Vivitar BV35, bem simples. Apesar de ser algo mais para me divertir, quero testá-la na rua também.

Have you come across any particular film that surprised you? Do you have a favorite film, and if so, what makes it special to you? 
O filme que mais uso é o Kentmere 400. Eu comprava bastante na Europa pois era o mais barato e muito bom, equilibrado, com bom contraste e grão fino. Além disso é muito versátil, o que me permite puxar bastante e atingir uma velocidade suficiente para fotografar à noite. Gosto tabém do visual granulado e contrastado do filme puxado. Infelizmente o preço ainda influencia muito a minha escolha, por isso utilizo muito o Kentmere 400 ou então Fomapan 400 quando necessário. Caso não houvesse restrição orçamentária utilizaria apenas HP5+ e Tri-x. 



How do you engage with the film development or enlargement process? If you work in another type of printing, please share details about it. 
Eu aprendi a dominar o processo do início ao fim, pois acredito que a fotografia em filme não se faz apenas no clique. A beleza do analógico, na minha visão, está no processo. A imagem é resultado de uma série de escolhas do fotógrafo, desde o filme, até a ampliação. Faço questão de revelar meus próprios negativos e ampliar minhas próprias fotos, afinal, é a minha fotografia, não me sinto confortável em terceirizar etapas. Assim, tenho controle sobre todo o processo, escolho a intensidade e frequência das inversões do tanque de revelação, o tempo de revelação do negativo (gosto sempre de deixar uns segundos a mais no revelador), escolho também os filtros de contraste para a ampliação, tenho liberdade para fazer máscaras, entre muitas outras escolhas que faço para construir uma fotografia. Tudo isso exige conhecimento, assim como em outras práticas artísticas, a liberdade criativa depende do domínio técnico. Nada disso é possível quando se terceiriza as etapas que vêm após a exposição do filme. Esse é também um dos motivos pelos quais prefiro o filme preto e branco. O processo com filme colorido é um pouco mais complexo e não possuo equipamentos suficientes. Hoje tenho acesso ao laboratório da Belas Artes, onde revelo, digitalizo e amplio minhas fotografias.

Do you still photograph in digital format? How do you perceive the differences between analog and digital photography? When do you choose one over the other? 
Sim, ainda fotografo com a minha câmera digital quando preciso. Mas vejo a fotografia digital e a analógica como ofícios radicalmente diferentes. Não entendo um como melhor ou pior que outro, mas prefiro o filme. É evidente que a fotografia digital é muito mais eficiente que a analógica. Mais ágil, barata e permite um volume de produção de imagens muito maior. Mas não tem, em minha opinião, a aura da fotografia em película. E não falo somente do aspecto visual do analógico, e talvez esse seja um dos motivos menos importantes. 
A fotografia digital fragilizou o registro imagético: o que antes era físico e imutável - a imagem captada pelo negativo - passou a ser uma sequência de códigos gerada por um sensor ao ser exposto à luz. Esse código é posteriormente traduzido em imagem por um visor digital. Quando surge a fotografia digital, surge também o questionamento sobre a existência da fotografia em seu estado físico. O negativo congela o instante pois entrou em contato com a luz que refletiu a imagem capturada, enquanto o digital não passa de uma sequência de números. Em um momento em que a imagem perde credibilidade devido ao uso da inteligência artificial, o uso do negativo fotográfico se torna uma forma de resistência.
A fotografia em filme exige uma presença que nunca será tão necessária quando se porta uma câmera digital, por diversos motivos. O número de exposições por filme impõe uma limitação física e econômica. Cada exposição, exige muito mais atenção e cuidado antes do disparo, e isso só se consegue estando totalmente presente no momento. Não é possível visualizar a foto imediatamente, não há lugar para ansiedade e distrações, tudo o que resta ao fotógrafo é manter o foco naquilo o que importa: a próxima imagem a ser capturada. Após cada foto é preciso passar o filme para o próximo frame, é necessário um movimento mecânico, não existe o recurso de "metralhar" diversos frames por segundo como nas câmeras digitais. O conceito do instante decisivo, de Cartier-Bresson, se perde com os múltiplos disparos por segundo da câmera digital. Não é mais a precisão do fotógrafo que capta o momento em que os elementos se alinham em uma composição perfeita. Agora basta manter o disparador pressionado - tecnicamente capturando um vídeo - e escolher o melhor frame posteriormente. A fotografia não digital é muito mais difícil e trabalhosa. É muito menos eficiente. Mas, para mim, a Fotografia nunca foi e nunca será sobre eficiência.
Por fim, a fotografia analógica me trouxe muito amadurecimento em alguns sentidos. O mais importante é em relação à presença, que mencionei anteriormente. Sinto que desenvolvi uma maior sensibilidade e atenção que amadureceram bastante meu olhar. Além disso, amadureci muito tecnicamente, utilizando equipamentos totalmente manuais, mecânicos e geralmente sem fotômetro. Hoje possuo uma sensibilidade muito melhor para fotometria, e utilizo tranquilamente uma lente manual (até prefiro). Isso me traz muita agilidade, o que é muito útil na fotografia de rua.



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